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domingo, 11 de janeiro de 2009

A lei do tabaco

Há pouco mais de um ano, no primeiro dia de 2007, entrou em vigor a nova lei do tabaco, que veio proibir o fumo em lugares públicos. Confesso que na altura achei a lei óptima, por puro egoísmo, eu não fumo e sabia-me muito bem a ideia de poder ir a um café ou restaurante sem ter de levar máscara. Mas agora, ao pensar melhor sobre o assunto, mudei de opinião.
Um café, um restaurante ou uma loja do que for, antes de serem lugares de acesso ao público são propriedade privada. Trata-se do meu café, do meu restaurante ou da minha loja. Posto isto, qual é o fundamento de o Estado, através de uma lei, decidir o que se pode ou não fazer naquilo que é meu? Eu tenho de ter o direito a decidir quem quero que frequente o meu espaço, da mesma forma que tenho o direito a decidir quem quero que frequente a minha casa. Se eu quero fumadores, deixo entrar fumadores. Se eu quero não fumadores, coloco um sinal a dizer "Proibido Fumar" e a coisa fica resolvida. E o estúpido argumento de que se sem esta lei um café não permitisse fumadores iria perder dinheiro é apenas isso: estúpido. Existiam já antes imensas pastelarias onde não era permitido fumar e não era por isso que deixavam de ter clientes. Para além disso, um espaço como esses seria muito apreciado por um certo público que não fuma - que ainda é um público enorme - o que permitiria uma estratégia de marketing diferenciado e até, quem sabe, acrescentar valor ao produto por isso. Mas isto nem sequer é relevante, o que é relevante é que temos um Estado pesadíssimo a intrometer-se a um ritmo galopante na vida privada dos cidadãos e temos uma sociedade que aceita isso como se nada fosse e que se habitua a ver a sua liberdade cada vez mais condicionada. Certos iluminados podem considerar que a lei do tabaco foi um passo em frente no caminho para um país mais civilizado, pessoalmente, considero que a lei do tabaco foi um passo enorme no caminho para a restrição da Liberdade neste nosso Portugal à beira-mar plantado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

à espera

Um dos piores pecados da sociedade actual é o da ingratidão. É certo que nunca foi considerado isto um pecado capital por quem de teologia entende, mas atrevo-me a fazê-lo. E digo isto por ser isto que vejo de dia para dia, nomeadamente em relação aos nossos velhos. Sim, chamo-lhes velhos porque é este o termo que se aplica quando alguém tem muitos anos e porque a maldade não está na palavra, mas no sentido que lhe é dado. Os velhos que em tempos deram tanto a quem deveriam dar, porventura mais até do que podiam, são hoje esquecidos, despejados em lares baratos ou em hospitais e sem qualquer apoio da família. Não digo que seja obrigação dos filhos albergar os pais na velhice, a vida não o permite, é mesmo assim. Mas é repugnante ouvir dizer que há famílias que internam os velhos doentes e que depois os deixam lá, "em alta", à espera pelo que não irá acontecer. E actos destes não são justificados com stress do trabalho, com afazeres domésticos ou com os banhos do cão, estes actos nem são justificáveis, são apenas sintomáticos de que a ética e os valores estão cada vez menos na moda e que a nossa pretensa civilização está a cair aos bocados, de podre.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Raciocínios inversos

Um fenómeno, se se lhe pode chamar fenómeno, que tenho vindo a observar é o da falta de pontaria que por cá temos quando responsabilizamos alguém por o que quer que seja. E isto é evidente na política.
Quando um governo governa mal, maldita oposição que não existe. O governo aprova um decreto-lei que permite a contratação directa, em relação às obras públicas, para contratos até cinco milhões de euros? Culpa da oposição que não se opõe e deixa isto acontecer.
Quando o Parlamento aprova por unanimidade uma lei inconstitucional, estando completamente ciente desse facto, a culpa não recai sobre os deputados, mas sim sobre o Presidente da República que não mandou a ordinária lei para o Tribunal Constitucional nem dissolveu a Assembleia da República.
Mas também na economia isto acontece. Veja-se o caso do BPN cujas administrações encobriam actividades obscuras e tapavam com tapetes autênticos poços. De quem é a culpa? Do Banco de Portugal que não soube fiscalizar.
E na polícia é outro carnaval. Há mais criminalidade, logo, a culpa é da polícia que não trabalha bem. Se um ladrão roubar uma bicicleta de quem é a culpa? Do ladrão que roubou ou do polícia que não o apanhou? A resposta parece-me clara.
E assim ficamos com os agentes feitos anjos e os ficalizadores feitos demónios, para que se continue a viver nesta admirável praia na cauda da Europa.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Picos nervosos

É impressionante como os anos passam e as coisas continuam. Somos um país de picos nervosos.
Lembramo-nos dos pobrezinhos sempre na mesma altura: no Natal. E no Natal tratamos de ter pena, rezar um terço, dar qualquer coisa a qualquer instituição e ver com um sorriso os pobrezinhos todos contentes por terem a ceia de Natal, um sorriso de dever cumprido: eles têm uma refeição. Dia vinte e seis esquecemos tudo. Os pobrezinhos deixam de existir e se não deixarem de existir fingimo-lo, que dar uma refeição no Natal já é ajuda mais que suficiente, isto 'tá mau.
E lembramo-nos da sinistralidade nas épocas festivas. Felizmente este Natal só houve dois mortos. Há vezes piores. Lembra-me de um Natal em mil nove e setenta e oito em que houve para cima de uma pipa deles. Depois voltamo-nos a esquecer das pistas de street racing que se foram construíndo à conta do dinheiro europeu.
E há a Educação. Quando um vídeo aparece no youtube com "brincadeiras" com pistolas a fingir e telemóveis a sério, ficamos chocados! Violência nas escolas! Eu que nunca me tinha apercebido de nada! E ficamos revoltados e culpamos a professora, e o conselho executivo, e a DREN, e os pais, e o Obama safa-se, porque gostamos muito dele.
O Obama é outro. Um furor do catano durante as eleições e desde então nunca mais vi assim uma capinha dedicada ao senhor, uma abertura de telejornal a chamar a atenção para o peido sonoro que sua excelência havia acabado de dar.
E é assim que vivemos. Com tantos picos nervosos ainda acabamos por ir parar às estatísticas (ai as estatísticas! essas davam três postas iguais a esta com tanto nervo que provocam!) do país com mais problemas cardíacos.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

A festa da Família

Cresci a ouvir que o Natal era a festa da Família (assim mesmo, com letra grande, sinal de suma importância). Segundo me diziam, e eu acreditava, no Natal a família está junta como em nenhum outro dia, a celebrar o nascimento de alguém que veio para nos salvar. À noite havia a ceia de Natal, durante o ano não havia nenhuma igual: doces, muitos doces, perú, bacalhau, polvo, hortaliças e um bom vinho, para se tirar a barriga de misérias. Aléluia que nasceu o menino! E nesse dia ofereciam-se lembranças aos mais chegados para que os mais chegados soubessem que nos lembrávamos. E nesse dia era-se feliz.
Mas agora olho à volta e vejo-me obrigado a chamar de mentirosos aos meus educadores.
Como de costume deixei as lembranças para a última. Não foi por mal. É que ofereço mesmo aos mais chegados e não gosto de encher a casa alheia de Ferrèro Rocher e Mon Cherri comprados à pressa num dia de avio. Gosto de escolher bem e de me certificar que as pessoas vão gostar daquilo que lhes ofereço. E não precisa de ser nada de muito caro. Como diz o Miguel Somsen, quando mais cara é a prenda, menos nos preocupamos com a sua beleza. Mas continuando. Deixei as prendas para a última e dei um salto ao Centro Comercial para as ir comprar. Como já sabia o que queria, demorei uma escassa hora. Mas o pior é que nessa curta (tão longa!) hora eu mal me consegui mexer. Era a Fnac atulhada de gente ensacada. Era o MacDonald's a servir refeições de Natal a uma Geração Rasca que não dá valor à tradição. Eram pessoas a andar de um lado para o outro num frenesim danado porque estava quase e ainda não estava nada feito. Era a Bertrand com uma fila enorme. E a fila para embrulhar à porta da já referida Fnac? Nem vos conto! E eram os autocarros a descarregar mais e mais crianças, adultos e velhos, gente de todas as idades. E eram escadas rolantes cheias para descer e vazias para subir. E era o caos.
E eu ali, sozinho, a comprar as minhas humildes lembranças, só pensava "tirem-me daqui".

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Democracia? Querias!

Pedro Arroja, no Portugal Contemporâneo

«Durante o tempo em que participei activamente na imprenda portuguesa, fui protagonista de numerosos episódios que, aos meus olhos, eram verdadeiramente insólitos. Assim, por exemplo, é caso raro na Imprensa, senão mesmo caso único, ver o director de um jornal a escrever no principal jornal da concorrência. Aconteceu com Vicente Jorge Silva, então director do Público, que decidiu escrever no Diário de Notícias, então dirigido por Mário Bettencourt Resendes:

As expectativas irracionais do sr. Arroja
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Por: Vicente Jorge Silva
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O colunista desse jornal sr. Pedro Arroja desenvolve na edição de domingo passado do "Diário de Notícias" uma interpretação bastante original da Teoria das Expectativas Racionais, de Robert Lucas, recentemente galardoado com o Prémio Nobel da Economia. Entre os exemplos portugueses que elegeu para essa interpretação, o sr Arroja - uma bizarra criatura de origem mais ou menos extraterrestre e que talvez por isso mesmo tenha adquirido um estatuto mediático absolutamente invulgar - aponta o "Público" como um caso típico da absoluta falta de influência dos meios de comunicação social sobre a decisão dos eleitores nas últimas legislativas, embora sublinhe, ao mesmo tempo, a orientação ostensivamente socialista do jornal que dirijo e de opiniões que exprimi durante a campanha eleitoral.
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Por uma questão de simples racionalidade, não perderei tempo a discutir com o sr. Arroja - conhecido pelo novo-riquismo das suas posições ultraliberais em matéria económica - o direito a ser "Chicago boy" em Portugal em 1995, quando a moda parece ter passado definitivamente, depois do Chile de Pinochet, passando pela América de Reagan ou a Grã-Bretanha da Srª. Thatcher. Acho apenas curioso que, para uma personagem tão descrente da influência dos meios de comunicação, o sr. Arroja se desmultiplique de forma tão frenética em intervenções na rádio e nos jornais para demonstrar, por puro masoquismo, o carácter anódino das suas opiniões. Ou será que, como herdeiro tardio dos "Chicago boys", o sr. Arroja é tão cínico que se preocupa apenas em facturar a sua irrisória vaidade como comentarista pago dos meios de comunicação onde colabora?
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O sr. Arroja tem todo o direito em classificar-me - e ao meu jornal - de "socialista" [1], como eu teria idêntico direito em considerá-lo um parvenu do reaccionarismo monetarista, que nada sabe da actual realidade portuguesa nem da história recente da imprensa deste país.
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Ele terá mesmo o direito democrático de não ler aquilo que tenho escrito, quer sobre o programa do Governo PS quer sobre os acidentes que marcaram a formação desse Governo. A ignorância e a má-fé ficam com quem as pratica.
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O que já me parece inteiramente inadmissível - e uma ofensa ao próprio jornal onde colabora - é que o sr. Arroja, no seu fervor "yuppista" de terceira classe, reduza a orientação das secções de cartas ao director à publicação das opiniões dos leitores que os responsáveis de cada órgão de informação julgam mais coincidentes com as suas próprias posições.
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Este propósito é claramente infamante - quer para mim, quer para o director do Diário de Notícias, Mário Bettencourt Resendes.
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E no que me diz respeito, gostaria de lembrar ao sr. Arroja que as opiniões de leitores do "Público" sobre os meus editoriais a propósito dos debates televisivos entre António Guterres e Fernando Nogueira foram maioritariamente críticas - por vezes, em termos violentos - das minhas próprias opiniões. Mas essa é, porventura, uma lógica que não encaixa nem no cinismo nem no gosto de manipulação com que o sr. Arroja - imaginando que os Portugueses são efectivamente patetas - trata leitores ou ouvintes que ele imagina "deslumbrados" com a bacoquice das suas divagações e expectativas irracionais.
(Diário de Notícias, 18 de Outubro de 1995; bolds meus).
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[1] O autor viria mais tarde a tornar-se deputado do Partido Socialista.»

domingo, 2 de novembro de 2008

Coisas do e-mail

Uma piada sobre as coisas "modernas" do nosso dia-a-dia.

SABES QUE ESTÁS A FICAR UM LOUCO DO SÉCULO XXI QUANDO:

1. Envias um e-mail ou usas o GTalk para conversar com a pessoa que trabalha na secretária ao teu lado;
2. Usas o telemóvel na garagem de casa para pedir a alguém que te ajude a levar as compras;
3. Esqueces o telemóvel em casa (coisa que não tinhas há 10 anos atrás), ficas apavorado e voltas para buscá-lo;
4. Levantas-te pela manhã e quase que ligas o computador antes de tomar o café;
5. Conheces o significado de tb, qd, cmg, mm, dps, k, ...;
6. Não sabes o preço de um envelope comum;
7. A maioria das anedotas que conheces, recebeste por e-mail (e ainda por cima ris sózinho...);
8. Dizes o nome da tua empresa quando atendes ao telefone em tua própria casa (ou até mesmo o telemóvel!!);Digitas o '0' para telefonar desde tua casa;
10. Vais para o trabalho quando está a amanhecer, voltas para casa quando anoitece de novo;
11. Quando o teu computador pára de funcionar, parece que foi o teu coração que parou;
11. Estás a ler esta lista e a concordar com a cabeça e a sorrir;
12. Estás a concordar tão interessado na leitura que nem reparaste que a lista não tem o número 9;
13. Retornaste à lista para verificar se era verdade que faltava o número 9 e nem viste que há dois números 11;
14. E AGORA ESTÁS A RIR DE TI MESMO!!!
15. Já estás a pensar para quem vais enviar esta mensagem;
16. Provavelmente agora vais clicar no botão 'Reencaminhar'... é a vida...que mais poderias fazer?... foi o que eu fiz também...Feliz modernidade.

sábado, 1 de novembro de 2008

Porque é que cá não pegou?


Ao longo dos anos habituei-me às imagens de como é o Dia das Bruxas americano. Uma festa. Crianças que esperam o ano inteiro por aquilo, qual Natal, e no dia mascaram-se, saem à rua, batem às portas, partem ovos, gastam papel higiénico, comem doces e são felizes. Por cá nunca houve esta tradição. E quem disser que é por estarmos em grandes cidades e as pessoas que se desengane porque no interior das aldeias, das vilas, também não se faz disto. Pelos vistos muitas pessoas já constataram esta realidade e, por isso, tentam "criar-se" tradições, mascarando forçadamente as crianças nas creches, fazendo "casas assombradas" e coisas que tais. Gostava tanto que um dia um bando de crianças mascaradas de Frankenstein me viessem bater à porta pedir os doces que eu teria guardados num grande pote junto à entrada.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Isto não é uma guerra!

É demasiado frequente no debate português a criação de uma "guerra". Um determinado indivíduo tem uma opinião contrária à de outro e a partir daí cria-se uma verdadeira guerra ideológica da qual é impossível sair um vencedor pois ambos, mesmo quando um está nitidamente errado, decidem não ceder. Isto aconteceu em imensas questões que fracturaram a sociedade e está a acontecer agora com o casamento entre homossexuais. Criam-se duas barricadas: a dos conservadores e a dos progressistas e a partir daí faz-se uma constante troca de galhardetes em blogues e artigos de jornal. Regra geral os intervenientes têm as opiniões daqueles que respeitam e defendem com unhas e dentes uma coisa sobre a qual nem cinco minutos pensaram. Pois, meus caros, isto não é uma guerra, isto é um debate que poderá influenciar de forma incontornável o futuro da sociedade portuguesa. Seria bom que quem quer debater este assunto mantivesse um certo nível na argumentação, não se partidarizasse e não apoiasse até ao fim uma determinada causa apenas porque não quer estar errado. Seria bom que os textos sobre este assunto não fossem simples "cata-comentários" com frases simples, falaciosas, provocatórias e muitas vezes insultuosas para com pessoas que simplesmente nasceram diferentes. Percebo que ainda vivemos numa sociedade muito conservadora e com ódios básicos a certas minorias (os gays, os ciganos, os pretos, entre outras), mas seria bom que tentássemos não exteriorizar esses ódios, isto para não dizer, apagá-los.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Quem és tu Zé Carlos?


O novo programa dos Gato Fedorento superou todas as minhas expectativas. Foi simplesmente bombástico.
Muita gente pensou, eu incluo-me no grupo, confesso; que os Gato estavam saturados, com uma imagem que já não agradava a ninguém e que gargalhadas já puxava poucas. Este programa de estreia foi a prova do contrário. Com uma criatividade única e um talento para a comédia já inquestionável, os Gato voltam e, quer queiram quer não, com tanto ou mais poder que antes. Ou muito me engano, ou as farpas assanhadas dos Gato vão fazer muita gente pensar em muita coisa. Parabéns, pás!

domingo, 28 de setembro de 2008

O poder como fim em si próprio

A democracia está corrompida. E isto não acontece em Portugal, acontece em todo e qualquer lado onde exista democracia. O poder, em vez de ser utilizado como um meio para atingir um determinado fim, o bem-comum, é utilizado como um fim em si mesmo, como um modo de estar na ribalta, de projectar carreiras e de ter pão na mesa. Os princípios ideológicos são apenas máscaras para subir nas sondagens, máscaras que rapidamente se mudam ao sabor da maré. Os progressistas tornam-se conservadores e os conservadores progressistas se necessário, tudo a bem de mais um ponto nas preferências dessa massa difusa a que se chama, no meio, eleitorado. Falo disto a propósito do casamento entre homossexuais. Esta questão é a prova de tudo acima escrito. Existem pessoas no país que se vêem discriminadas, com direitos condicionados pela orientação sexual que tão cedo não verão a situação resolvida pelo simples motivo de a solução não ser "consensual na sociedade". A maioria sobrepõe-se à ética. O poder sobrepõe-se ao bem-comum. E assim vai a democracia, pelas ruas da amargura. Hoje e sempre.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Questões Fracturantes

Eu sou a favor da liberdade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não, não sou do Bloco e muito menos dos Verdes. Aliás, penso sinceramente que é incompreensível o posicionamento de alguma da nossa política sobre esta questão. Felizmente vivemos numa democracia em que, em teoria, reina a liberdade, logo, não vejo qualquer fundamento para que a lei não permita um casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. A base é simples: uma lei serve para regular a sociedade, de modo a que uma pessoa ou um grupo de pessoas não cause danos ao resto. No caso do casamento entre homossexuais, não se verifica qualquer dano causado à sociedade, a não ser o mal-estar provocado nos homofóbicos.
Mas, apesar de o casamento entre homossexuais ser uma questão de liberdade e direitos, não se pode colocar, como alguns fazem pela blogosfera, no mesmo saco do aborto. Isto para muitos parecerá estranho, mas, ao contrário da nossa sociedade estereotipada entre "progressistas" e "conservadores", eu sou a favor do casamento entre homossexuais e contra o aborto. E passo a explicar porquê. Enquanto que o casamento entre homossexuais não lesa, tal como disse acima, qualquer terceiro, o aborto já o faz. Muitas pessoas colocam o aborto no pacote dos "direitos, liberdades e garantias", o que é errado. O aborto, ao contrário do casamento entre homossexuais, põe em causa os "direitos, liberdades e garantias" de terceiros, razão pela qual não pode ser uma coisa à margem da lei. Bem sei que muita gente que defende o aborto insurge-se pela liberdade da mulher em fazer o que quiser com o seu corpo, o corpo é dela, logo, dentro dele passa-se o que ela quiser. Falácia. A casa em que estou agora é minha, logo, dentro dela passa-se o que eu quiser, se isso passar por matar alguém, não há problema. Existem muitos outros argumentos disparatados por aí a circular, mas rebatê-los é coisa para ensaio e não para post aqui.
A terceira e última questão fracturante sobre a qual queria escrever é a eutanásia. Sou contra. E o motivo é simples. A eutanásia, como o caríssimo leitor certamente saberá, é a morte medicamente assistida (causada). Ou seja, um doente numa determinada situação pode pedir a um médico que, literalmente, o mate. Para mim é ilegítimo fazê-lo por uma simples razão, o doente pode tratar do assunto sozinho. O que quero dizer com isto é que é ilegítimo que alguém peça para que o matem quando se pode matar a si próprio (o suicídio ainda não é crime). Matar é eticamente condenável para a larga (larguíssima) maioria da população, ou seja, matar alguém, mesmo que doente, deve causar algum transtorno ao profissional de saúde que tem todo o direito a zelar pela sua sanidade mental.
E pronto aqui estão os meus posicionamentos em relação às grandes questões fracturantes que assolam esta ocidental praia lusitana.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Coisas que não entendo

Somos um país pequeno. E não é por termos apenas noventa mil quilómetros quadrados. A nossa pequenez vem do facto de não sermos capazes de ficar contentes connosco próprios, de nos orgulharmos dos nossos feitos e conquistas. Falamos com desprezo dos Descobrimentos, que considero um dos períodos mais importantes da História, comparável à Revolução Industrial ou à Renascença. Poucos ou nenhuns de nós lacrimeja quando ouve cantos dos Lusíadas ou mensagens da Mensagem. Poucos de nós se arrepiam, se levantam e põem a mão no peito quando ouvem A Portuguesa, mesmo que estejam sozinhos no recato do lar. Somos um país pequeno porque não somos capazes de nos orgulhar da nossa grandeza. Não ouvimos os políticos portugueses fazer discursos inflamados a dizer que "conseguimos", a dizer que devemos trabalhar para o país e não esperar o contrário. E não os ouvimos fazê-lo porque sabem que connosco não pega. Mas não foi só isto que me fez escrever este "manifesto ao patriotismo". Foi o facto de desprezarmos os excelentes cientistas portugueses que pelo mundo vagueiam a fazer investigação nas universidades que não são as nossas. Foi o facto de o Pinto da Costa aparecer mais nos telejornais que todos os escritores portugueses juntos. Foi o facto de ouvir constantes notícias sobre fábricas estrangeiras a fechar em Portugal e não ouvir as notícias sobre as fábricas portuguesas que abrem no estrangeiro. Foi o facto de estarmos simplesmente moldados para nos odiarmos, a nós e ao nosso povo, à nossa raça. Desculpem o desabafo, mas estava cá preso e pronto para sair.

sábado, 20 de setembro de 2008

Inovações Parlamentares

Francisco José Viegas n' A Origem das Espécies.

Um deputado social-democrata moderninho diz que a nova lei do divórcio é «uma inovação» no País face à legislação europeia. Pode ser. Mas o espírito das leis é uma coisa – e a aplicação é outra. O legislador (o Parlamento, enfim) devia pensar no assunto em vez de aprovar leis feitas para um mundo ideal onde habitam pessoais ideais e em condições ideais. Nunca é assim. As pessoas concretas, os seus problemas e a maldade habitual acabam por lutar contra as leis para serem mais felizes ou aproveitar-se delas para passarem adiante. Pode ser que eu esteja a ser conservador mas não tenho medo da palavra; simplesmente, basta imaginar divórcios litigiosos concretos (agora exterminados por diploma) para perceber que quem vai sofrer são os mais fracos. Neste caso, as mais fracas.

domingo, 14 de setembro de 2008

Ser Ultra-Conservador

A única coisa que me irrita mais nos debates que a rotulação de pessoas como de "esquerda" e "direita" é a rotulação de "progressistas" e "conservadores". Isto acontece principalmente quando se fala do aborto. Um indivíduo que considere o aborto admissível é um indivíduo progressista, voltado para o século XXI, moderno como se dizia no meu tempo. Um indivíduo que se oponha ao aborto é retrógrado e conservador. Não consigo perceber isto. Aquilo que distingue os que defendem e os que não defendem o aborto são diferentes formas de encarar a ética. Um indivíduo que defenda o aborto considera que este é eticamente justificável e vice-versa. Eu, por exemplo, sou contra o aborto por não ver qualquer diferença entre fazer um aborto e matar um recém-nascido, sou, no entanto, liberal (ou, pelo menos, considero-me como tal). Isto tudo vem por causa do que se tem dito sobre Sarah Palin. A candidata republicana a vice-presidente é chamada ultra-conservadora em tom pejorativo por ser contra o aborto, pró-armas, contra o casamento entre homossexuais. Eu, pessoalmente, não gosto da senhora, no entanto, considero que tem total liberdade de ter estes posicionamentos que não são, em nada, errados, apenas diferentes daqueles que ocupam as mentes dos nossos queridos comentadores.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Os milagres estatísticos

A Ministra da Educação, a excelente Maria de Lurdes Rodrigues, prefez um outro milagre. Depois de termos tido os melhores resultados desde não sei quando nos exames de matemática, ficamos a saber que as taxas de retenção foram as mais baixas da última década.
Isto é desastroso. Não a baixa de retenções, que analisada superficialmente é excelente. O problema é que tudo assenta num tremendo facilitismo. Os alunos não trabalham para saber, trabalham para passar. Está já instituído. O que acontece depois é que temos gente nas universidades a não saber escrever um texto ou fazer uma conta. Universitários esses que depois entram para o mercado de trabalho e pela falta de aptência para trabalhar acabam por ir ou para a função pública ou para o centro de desemprego. Mas o mal não é só dos ministros. O mal é de toda a sociedade que só consegue avaliar uma govenação através das famigeradas estatísticas. Crescemos 0.2%? O governo não presta. Os alunos chumbam? Demita-se a ministra. E por isto ficamos. As legislaturas são corridas à estatística e ao charme, às capas maravilhosas que, como todas as outras, não permitem avaliar o livro. Os males da educação não se resolvem com melhorar as estatísticas, resolvem-se, como já disse aqui, com uma mudança de mentalidades para que a educação seja encarada como essencial e não como um atelier de tempos livres.

Adenda: O Mário Nogueira concorda comigo.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

The Big Brother Is Watching You!

A febre da segurança e do policiamento está a afectar as pessoas em todo o lado. Por cá, mandam-se polícias para as bombas da gasolina, em Londres colocam-se micro-aviões telecomandados a vigiar os movimentos de todos e de cada um:

«The micro-drone is only 3ft wide, weighs less than a bag of sugar and can record images from a height of 1,600ft. It was originally used for military reconnaissance but is now being tested by police. The unmanned aerial vehicle (UAV) had a test flight yesterday and will be operational from next month for a three-month trial. If the experiment works, other forces will follow suit - furthering Britain's reputation as a ''Big Brother society''. This country has more CCTV cameras than the rest of Europe put together and in the past week, two police chiefs have voiced their concern over the levels of surveillance.(...)»

Londres é actualmente a segunda cidade mais vigiada do mundo (a primeira é Pequim), o que contrasta bastante com a ideia de sociedade livre que o Reino Unido transmite para o exterior. Se o facto de ser a cidade mais vigiada da Europa não a torna mais segura, porque é que mais vigilância ainda fará? Ao não se colocarem limites à "segurança", começam a colocar-se limites à liberdade dos inocentes. Numa cidade obcecada com a criminalidade, todos passam a ser suspeitos sem motivo, todos os movimentos são filmados e observados: um grande Big Brother. Por enquanto a Inglaterra ainda é uma democracia, mas com as armas de autêntica espionagem que por lá se encontram, aquela ilha torna-se um paraíso na Terra para um qualquer indivíduo que aspire a ditador e um modelo para o mundo não livre. Esperemos que os ingleses se oponham a tais medidas e que salvaguardem a sua liberdade, ou a que lhes resta, porque a aceitarem o que lhes querem impor, abriram um precedente para o resto do ocidente que ainda toma o Reino Unido como modelo.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Programas da manhã

Nestas férias tive a oportunidade de assistir a algumas emissões de programas da manhã, nomeadamente, os programas da Fátima Lopes e do Manuel Goucha. E pareceu-me francamente mal.
Bem sei que o objectivo da televisão é obtenção de audiência, só assim recebem a publicidade de que tanto precisam para subsistir, no entanto, não vale tudo. A banalização do mal neste tipo de programas é brutal. Em todas as emissões temos um conjunto imenso de famílias em sofrimento, de pessoas em agonia, de crianças com doenças incuráveis: o real social em escassas duas horas. Perante tais situações, os apresentadores bondosos e caridosos tratam de chorar, de se "emocionar", de ajudar e de acompanhar a vida de quem sofre. Mas tudo isto tem de ser muito rápido, porque logo a seguir tem de se ir dar dinheiro com um sorriso que toque nas duas orelhas, não vá assustar-se a clientela do telefone (que também dá bom dinheiro). Depois do momento de alegria, novamente semblante carregado para se ir fazer aquilo que melhor se faz nas manhãs da televisão nacional: julgamentos públicos. "Crime diz Ele" e "Crónica Policial" são as rubricas em que inspectores, ou ex-inspectores, tratam de dizer o que pensam e de convencer os outros de que sabem do que falam, com revelações tremendas, com certezas inabaláveis, mesmo que em tribunal o contrário se diga. E assim, com uma brincadeira de duas horas, pessoas são ajudadas, outras difamadas, outras completamente destruídas publicamente. Ainda me lembro de um programa em que Manuel Goucha disse em pleno directo, ao telefone, que se fosse ele a mandar a senhora da chamada nunca mais trataria de uma criança.
Dinheiro honesto? Poupem-me.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Viva o Blok

O João Caetano Dias escreve no Blasfémias sobre o encontro dos jovens do Bloco de Esquerda. Está simplesmente brilhante. Deixo-vos aqui o texto mas têm de passar por lá para lerem o hino, sim porque aquilo é um verdadeiro hino, ao "bloquismo" (negritos meus).

«Começa hoje e prolonga-se até Domingo a festa de Verão dos jovens do Bloco de Esquerda, este ano chamada Acampamento Jovens Bloco de Esquerda. O programa é muito abrangente. Inclui debates sobre Imigração e Racismo, Bio-combustíveis e Crise Alimentar, LGBT, Feminismo e Combate Social, Drogas Leves e Precariedade entre outros temas todos absolutamente indispensáveis. Há workshops sobre realidades absolutamente relevantes para o mundo moderno, dos quais destaco “Faixas”, “Stencil/Subvertize” e o mais interessante de todos, “Brinquedos Sexuais” (multi-género, espera-se).O Blasfémias quer colaborar com esta louvável iniciativa da Sociedade Civil. Estando imposibilitados de acampar por falta de militãncia activa, resta-nos oferecer à organização e aos jovens do Bloco, um Hino.(...)»


domingo, 3 de agosto de 2008

Ideias Peregrinas

O líder centrista, Paulo Portas, apareceu ontem em Faro com uma ideia, no mínimo, contraditória. Depois de ter falado da lei que o PS vai apresentar (da qual não tenho conhecimento) que vai alterar a situação dos ex-combatentes, veio falar de voluntariado. Coisa estranha esta do voluntariado. No meu tempo, o trabalho voluntário era aquele que não era remunerado. O Paulo não concorda, ele acha que o trabalho voluntário deve ser pago. Como? Benefícios fiscais. Os bons velhos benefícios fiscais que aparecem sempre num discurso pleno de demagogia como já é hábito do CDS (e não só). Analisada de uma forma superficial a ideia até é interessante: nós temos pouco voluntariado e pouca consciência social, dado que funcionamos por incentivos é bom que incentivemos as pessoas a serem voluntárias. Mas o dinheiro não pode ser incentivo para tal, pois aí o voluntariado deixa de o ser. Um professor de matemática que dê explicações a alunos carenciados apenas porque vai receber benefícios fiscais não é um voluntário, é um tipo esperto que junta o útil ao agradável. Existem imensas formas de promover o voluntariado de modo a que este seja feito como deve ser feito: sem nada em troca. Basta falar com a Casa da Criação para meterem os Morangos com Açúcar a fazer voluntariado e vamos ver se de um momento para o outro os miúdos não vão todos para os bombeiros.

Adenda: A questão dos ex-combatentes já está a dar discussão. A Secretaria de Estado já se pronunciou e tudo. Este pessoal é mesmo despachado!