Nova localização

O Afilhado mudou-se para aqui.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Juízes Humeanos

Ao que parece, não está provado um nexo causal entre a fruta e os jogos no Apito Dourado. É verdade, nexo causal não há, só há conjunções constantes!

Impossibilidades grevistas

N' O Câmara Corporativa está um artigo brilhante que passo a transcrever:

«Há pouco tempo, a CGTP quis fazer crer aos mais crentes que pôs 200 mil pessoas a desfilar entre o Marquês de Pombal e os Restauradores (em Lisboa). Esqueceu-se de um pormenor: nos Restauradores não cabem mais de 80 mil pessoas e é necessário, mesmo assim, estar-se à beira do assédio…

Neste fim-de-semana, a CGTP organizou novas manifestações em todas as capitais de distrito. A coisa não correu lá muito bem, mas ainda assim os mesmos contabilistas garantem que, à manifestação de Lisboa, fizeram deslocar 30 mil manifestantes, que percorreram o trajecto entre o Largo do Camões e o Rossio.

Trata-se de uma nova impossibilidade física: no Largo do Camões, e mesmo juntando-lhe o Largo do Chiado, caberão 10 mil pessoas e o Rossio, com muito jeito, comporta no máximo 20 mil.

Será que quem mente tanto a fazer contas pode dizer a verdade aos trabalhadores? Valha-nos que, por coincidência, ia ali a passar Jerónimo de Sousa e aproveitou para dizer umas palavrinhas aos associados da CGTP.»

Medidas predefenidas para problemas nunca vistos


Ás vezes dou por mim a pensar nos economistas de Bruxelas como cozinheiros. Têm livrinhos de receitas para tudo. A inflação sobe? Trata-se de aumentar as taxas de juro! Isto não é sempre assim...

É verdade que neste momento a inflação na Zona Euro está a atingir valores recorde, no entanto, essa é uma inflação virtual porque as suas causas são apenas o aumento do petróleo e dos produtos alimentares, sendo que nenhum é causado pela Europa. Um aumento das taxas de juro é um mecanismo para a diminuição das taxas de inflação quando estas se aplicam a todos os produtos, não quando se aplicam a apenas alguns. Um aumento das taxas de juro incentiva as pessoas a poupar, aproveitando maiores ganhos. Assim, ao poupar, as famílias consomem menos, havendo, portanto, uma menor pressão sobre os preços - inflação. No entanto, as pessoas não abdicam de alguns consumos, nomeadamente, a alimentação e o transporte. Já o amigo Engel nos dizia (é certo que por outras palavras) que comidinha nem em casa de pobre falta... Um aumento das taxas de juro pode levar a diminuição do consumo de tudo e mais alguma coisa menos de produtos alimentares e de produtos petrolíferos, assim, a procura de produtos que não contribuíram para esta inflação vai baixar e a procura de produtos que contribuíram vai manter-se (aposto que a inflação virtual, por este caminho, ainda vai aumentar mais!).

Um aumento das taxas de juro, nesta conjuntura, vai levar a que os produtores de bens e serviços que não contribuíram para o aumento da inflação diminuam as vendas, ou seja, diminuam as receitas. Por outro lado, vai levar a que os investidores recorram menos ao crédito bancário, ou seja, o investimento começa a desacelerar. Se calhar seria conveniente pensar nos fenómenos económicos pondo de parte os livros de receitas...

domingo, 29 de junho de 2008

Haja dinheiro!

Vi ainda agora uma coisa brutal n' O Eixo do Mal. Parece que as mulheres que interrompem voluntariamente a gravidez têm direito a subsídio de maternidade. Este é um enigma da linguagem digno de Wittgenstein!

O que me mete alguma confusão (e isto parece discurso populista mas ainda não quero pelouros) é que se atribuam subsídios de maternidade às mães de nada e a imensas pessoas que realmente precisam não se dê. Quando é que o controlo do défice vai começar a passar por verdadeiros cortes na despesa, políticas estruturais que permitam não gastar dinheiro em situações em que não se justifica?

Eleições (?) no Zimbabwe

Depois de a União Europeia, esse anão político mas muito mais político que todos os outros gigantes, ter declarado ontem que não reconhecia os resultados eleitorais do Zimbabwe, foi a vez de a União Africana se pronunciar.

A segunda volta das eleições presidenciais no Zimbabwe não foram “nem livres nem justas”, consideraram hoje os observadores do Parlamento Pan-africano, que pediram a realização de um novo escrutínio.

O arcebispo sul-africano Desmond Tutu, Prémio Nobel da Paz em 1984, já disse, também hoje, que apoiava uma intervenção internacional, se necessário pela força, para estabilizar o Zimbabwe e pediu à União Africana que se unisse na rejeição do novo Governo do Presidente Robert Mugabe. (...)

Finalmente a comunidade internacional parece estar a considerar uma intervenção como cenário possível. Neste momento o monopólio do poder está nas mãos do "Salvador da Rodésia" e "Carrasco do Zimbabwe", nem os seus ferozes opositores têm coragem suficiente para avançar mais. O fim só se augura se associado a uma monte de capacetes azuis a invadir o território. Por enquanto, Mugabe ganhou e continua o genocídio...

Diz que fumar mata...


(via O Jumento)

sábado, 28 de junho de 2008

Monopólio do Petróleo

Li n' A Câmara de Comuns um artigo do Paulo Ferreira sobre especulação ligada ao petróleo. Ao que parece, Manuel Ferreira de Oliveira (o CEO da Galp) atribui à especulação a escalada dos preços. Isto é estupidamente redundante. É óbvio que o que dita os preços não é mais nada que não a especulação, ou seja, o encontro entre a oferta e a procura.

O que acontece actualmente com o petróleo é que este é o único recurso energético realmente utilizado e os seus produtores formaram um cartel, ou seja, nem sequer há concorrência entre os produtores mundiais. Como em todos os casos de monopólio, a única hipótese é a opção por um bem substituível. Isso iria criar no mercado uma concorrência entre os dois produtos, o que levaria a uma quebra nos preços (lembremo-nos do antigo monopólio da PT e dos preços de telefone elevados, agora ninguém paga chamadas locais...). Felizmente, Ferreira de Oliveira parece saber isso:

"O fisco português, só do consumo dos produtos petrolíferos, vai receber seis mil milhões de euros este ano. Se parte deste dinheiro fosse usado para um novo paradigma energético, encontraríamos uma solução sucedânea", afirmou

Era efectivamente bastante bom que com o ISP que se anda a receber (que é quase um crime) se apostasse numa alternativa de uma forma séria e não apenas para inglês (e europeu em geral) ver. Uma outra forma de financiar essa investigação nas alternativas seria a aclamada Taxa Robin dos Bosques, que ao que parece vai mesmo para a frente, apesar de ser uma estupidez. Vamos ver se qualquer dia este monopólio acaba e começamos a usar carros movidos a chá.

ONU e o Zimbabwe


Sempre aplaudi a ONU. Uma instituição sem nação (?) que trabalhava para o bem da humanidade. No entanto, de alguns anos para cá, tenho vislumbrado algumas demonstrações de indiferença que me preocupam. Há uns anos foi a questão do Iraque. Uma guerra entre os EUA e um país problemático, com armas de destruição massiva que afinal não eram, e com muita "democracia" por aproveitar. Agora em relação ao Zimbabwe parece não chegar a um consenso. Ao que parece, há dúvidas sobre a iligitimidade das eleições. Bem, aqueles 15 conselheiros devem ser os únicos com dúvidas, duvido que mais alguém no mundo ache que está tudo bem...
Por ora, as coisas vão assim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Não nos devíamos ter metido com o Pinto...

Se não os podes vencer, junta-te a eles!

Quando hoje visitei O Jumento, na parte de imprensa, li um excerto de uma notícia do Jornal de Notícias que passo a citar:

«PCP propõe acabar com coimas para consumo de droga

Preocupado com a falta de eficácia das Comissões de Dissuasão da Toxicodepência (CDT), o grupo parlamentar do PCP propõe alterações à lei da discriminalização do consumo de drogas, entre as quais o fim das coimas aplicadas a consumidores. (...)»

Realmente faz bastante sentido, quando uma política para dissuadir toxicodependentes de consumir droga não resulta, a melhor coisa a fazer não é melhorar a política mas sim permitir o consumo à vontade... Faz-se boa política ali para os lados ds Soeiro Pereira Gomes...

Educação do Pai Natal

N' A Câmara de Comuns li um artigo sobre a educação no mundo e sobre a posição dos escandinávos nos rankings mundiais. Pelos vistos os escandinávos são os jovens mais brilhantes do mundo.

Eu não penso assim. Os escandinávos não são nenhuma raça superior em inteligência. O que acontece é que nos países escandinávos (bem como noutros, como os do Leste europeu e no Japão, por exemplo), os alunos sabem que na escola é para trabalhar e, na altura de trabalhar, sabem fazê-lo. Isto não é só por causa de políticas educativas fantásticas e por causa de governos excepcionais. Isto é principalmente causado pela própria cultura do país. Enquanto que em Portugal os miúdos vão para a escola porque tem de ser e ficam lá a "secar" até tocar, nesses países os alunos vão para a escola "aprender", "trabalhar". Talvez, admito, haja um maior interesse por parte dos alunos nessa aprendizagem por causa de determinados factores: o leveza na relação aluno-professor (tratam-se pelo nome), talvez tenham matérias mais interessantes e, portanto, uma relação com a escola bem mais saudável. Mas isso não pode ser o único factor porque, por exemplo, no Japão tudo é extremamente rígido e eles são brilhantes à mesma.

Para mim, a solução passa, exactamente, pela mudança de mentalidades. Passa por mostrar aos jovens que a escola é importante, é o trabalho deles e que o que eles ali estão a fazer vai determinar o seu futuro. Esta mudança de mentalidades não se faz no secundário! Começa-se pelo sempre negligenciado ensino pré-escolar. Começa-se com pequenas coisas! Mania esta dos portugueses começarem as casas pelo tecto...

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Ensino Universitário

Li hoje numa notícia do Diário de Notícias que as verbas atribuidas pelo Estado ao ensino superior vão sofrer um corte. Mas o corte é tudo menos pequeno (são cerca de 200 milhões de euros). Neste momento, quase não há na OCDE países cujo contributo do PIB para o ensino superior seja menor. Associado a este corte está o facto de as propinas pagas em Portugal são das menores da União Europeia.

Isto é um erro tremendo daquilo a que se pode chamar gestão do dinheiro. Até 2013 temos fundos da União Europeia para tentarmos, de vez, crescer de uma forma sustentada. Então, ao receber esses fundos, o que fazemos? Cortamos no ensino superior. O ensino superior realmente é um simples apêndice daquilo que é o desenvolvimento. Isso e o I&D, a cultura e tantas outras áreas "esquecidas". É preciso arranjar forma de, por um lado, alguns sectores se auto-financiarem, por outro, de conseguir atribuir fundos suficientes a estas áreas tão importantes no longo prazo. Por exemplo, porque não haver um sistema de pagamento de propinas com base nos rendimentos? Já que vivemos num Estado com o principio da solidariedade social... Não faz muito sentido que no ensino público uma pessoa pobre pague o mesmo que uma pessoa rica. Pode pensar-se que isto afastaria os ricos do ensino público e atirá-los-ia para o privado, mas isso é um erro. Em Portugal, ao contrário de muitos outros países, o ensino superior público é bastante melhor que o privado, a não ser em casos especiais (com o a Universidade Católica). Esta seria uma óptima forma de gerir o dinheiro das universidades, funcionando estas de um modo mais justo e mais sustentável. Provavelmente a qualidade do Ensino Superior até poderia aumentar e, deste modo, a qualidade dos nossos licenciados também.

Há coisas fantásticas

«Colete salva-vidas do Titanic leiloado por 68.500 dólares

Um colete salva-vidas do Titanic, o transatlântico que naufragou em 1912 provocando a morte a 1.500 pessoas, foi arrematado na quarta-feira por 68.500 dólares, num leilão da Casa Christie´s de Nova Iorque. (...)»

Sem comentários...

terça-feira, 24 de junho de 2008

(des) Acordo Ortográfico

A crónica de Desidério Murcho, hoje no Público, foi deveras boa. Este forte contestatário em relação ao Acordo Ortográfico já nos brindou diversas vezes no De Rerum Natura com textos brilhantes sobre o tema. Deixo aqui alguns excertos da crónica

«Fatos e leis

(...) Tenho escrito sobre o Acordo Ortográfico porque há dois aspectos cruciais que não têm sido discutidos. Tanto os críticos como os defensores do Acordo Ortográfico parecem concordar nestes dois pontos: que uma reforma ortográfica bem feita e imposta legislativamente é legítima; e que a desejável aproximação entre o Brasil e Portugal se consegue dando um primeiro passo legislando sobre a ortografia.

Ora, parece-me que estas duas ideias são não apenas falsas, mas constituem o tipo de falsidades que denota um certo tipo de mentalidade que urge combater.

(...) Legislar sobre a ortografia com a esperança de que isso fará dialogar os linguístas, lexicógrafos, físicos, médicos e poetas dos países de língua portuguesa é como fazer uma lei que oferece chocolates para estimular as pessoas a fazer exercício físico em vez de passarem a vida a ver televisão comendo chocolates.»


Completamente de acordo em relação ao seu desacordo em relação ao Acordo. Como já disse anteriormente, vou fazer o máximo para comprar o máximo de livros antes de estes serem revistos. Depois disso... só alfarrabistas!

Zimbabwe e o sonho da Democracia


Nos últimos meses tem se falado muito (pouco) sobre a situação zimbabweana. Todos sabemos o que se passa. Todos fingimos nem saber. Isto é particularmente grave nos media que estão a assumir uma posição de completos cegos, surdos e mudos em relação a este autêntico genocídio.

Robert Mugabe, que apareceu nos anos 80 como o salvador da Rodésia, cedo se apoderou do poder absoluto daquele que em tempos foi um dos territórios mais desenvolvidos de África. Em 1987, o Hitler africado instaurou um regime presidencialista, o qual passou a chefiar.
Este ano houve "eleições gerais". Houve por uns tempos a ingénua esperança de que a democracia iria pairar por aquele país completamente destruído em todos os sentidos. Todo o processo foi feito com base na intimidação. Numa corrida na qual a oposição ia à frente, muitas rasteiras foram pregadas, e com recurso à força, Mugabe acabou por passar a frente dos seus adversários. Na segunda volta das eleições, o seu opositor Morgan Tsvangirai viu-se obrigado a desistir. Neste momento o país enfrente uma inflação anual prevista de 5 000 000% e milhões de emigrantes e exilados que fogem àquilo que é o puro terror na África Austral. União Africana? ONU? Nem pio. Aquelas pessoas estão a ser deixadas ao abandono pela comunidade internacional e não se prevê uma intervenção nos próximos tempos. Por enquanto, a chacina continua.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Achmed - The Dead Terrorist

Simplesmente hilariante este Achmed do Jeff Dunham. Por cá contentamo-nos com o Donaltim do Zé Freixo... Só uma pequena observação: este vídeo já teve mais de 52 Milhões de visitas no Youtube. É obra!

O Símbolo no Jovem Nietzsche - Convidado


Carlos Alfredo do Couto Amaral [1]

«[...] Habita a Razão na identidade bem composta
ou na desleixada contradição? [...] »
In, A Sombra dos Momentos Felizes.[2]

1. A filosofia aborda a função simbólica da arte integrada na sua tarefa interpretativa (hermenêutica), num dos períodos do pensamento mais marcados pelo simbolismo e misticismo, referimo-nos ao romantismo alemão, como movimento civilizacional que formou as condições para o aparecimento da teoria nietzschiana.
Centramo-nos no conceito de símbolo tal como o jovem Nietzsche o tratou entre os anos de 1870 a 1873. Onde a transposição é apresentada como a categoria fundamental: “O símbolo é a transposição duma coisa para uma esfera completamente diferente”[3] indicando o transporte e a mudança de uma imagem e de um significado para outro âmbito. Sendo apresentado como um elemento essencial da comunicação que relaciona as diferentes grandezas em jogo na arte.
Se bem que, já desde Aristóteles a metáfora seja considerada como a transposição, que permite traduzir os elementos de realidades diferentes. A metáfora identifica ainda a mudança que os latinos classificam como ‘translatio’, o trânsito semântico, isto é, a alteração de significado. Em Nietzsche, o símbolo e a metáfora equivalem-se parcialmente enquanto processos artísticos, que estabelecem relações inventivas na criação da obra de arte.
Estando o símbolo próximo dos fluxos da vida, ele converte a música na categoria mais apropriada para retratar a multiplicidade da existência enquanto mudança e metamorfose. Por isso, o símbolo não é redurtivel à metáfora, pois a música tem um papel essencial na metafísica estética sem se subordinar à dinâmica das imagens.
Nietzsche trata a imaginação como a faculdade que estabelece a unidade entre as diferentes imagens através da invenção de suposições audaciosas. Diz a este respeito em A Visão Dionisiaca do Mundo: “[a fantasia] dá-lhe asas, um poder estranho e ilógico”. Assim estabelece comparações que transpõem os significados para domínios desconhecidos, como acontece com o uso da máscara, a qual em simultâneo revela e esconde a força da vontade, transfigurando e trocando uma identidade por outra.
Portanto, o símbolo a partir da acção transpositiva e transfigurativa une numa expressão os elementos sensíveis e metafísicos. Entende a mutação da vontade que se esconde e se manifesta na dinâmica natural da força e potência da arte, permitindo entender as suas próprias metamorfoses. Enfim, através da relação dialéctica entre a força e o significado (inerentes ao símbolo) podemos compreender as forças da natureza e o modo como estas transitam para a arte.

2. Ao investigar a origem do símbolo na força matricial que o sustenta, Nietzsche detecta que existe um fundo inconsciente. No plano da construção simbólica, o inconsciente está presente como um fundo orgânico ‘sapiencial’, que é necessário tornar consciente. Apesar disso, não existe para ele uma ponte segura para a transposição deste elemento para aquele. Pois o nível inconsciente não se deixa submeter aos princípios formais da lógica, que se apresetam como a panaceia onde se esconde a fragilidade do racionalismo abstracto.
Em contrapartida, Nietzsche considera que os impulsos cegos do organismo são transpostos de modo simbólico, primeiramente para as vivências sentimentais e depois para as actividades culturais; ou seja, o inconsciente é a fonte energética do processo simbólico. Identifica ele nessa potência subterrânea uma torrente que atravessa os sentimentos, que se constituem como referenciais semânticos com a capacidade de produzirem novos símbolos. Isto deve-se ao facto do sentimento traduzir o sentido interno, que percebe e orienta a intenção do instinto. Na perspectiva do nosso filósofo, todo este processo é indirectamente controlado pela vontade.
E, como se sabe, a categoria da vontade no jovem Nietzsche é claramente influenciada pela filosofia de Schopenhauer. Com efeito, ambos os filósofos concebem o ser e o mundo como entidades dinâmicas, pensando que o mundo é uma representação e manifestação da vontade.
Implicitamente, a noção de génio aparece aqui como a entidade “subjectiva” que sente a força da vontade a pensar com ele acerca da produção das novas formas; o que significa que o génio é o culminar dessa orgânica da vontade, procurando indirectamente dominar a ‘Força da Vida’, para a partir desse fundo inconsciente poder criar as formas simbólicas, as formas míticas, as formas poéticas.

3. No desenvolvimento de tal aspecto, o mito e a arte desempenham uma função simbólica acrescida, na medida em que Nietzsche os utiliza, altera e recria como narrativas e ilustrações do seu próprio modo de pensar. Logo, ao entender o que é essencial no pensamento deste filósofo, convertemo-nos em intérpretes dos seus mitos e dos respectivos símbolos artísticos.
No entanto, se já vimos como nascem os símbolos, agora convém observar como é que eles desaparecem. No prosseguimento dos românticos, o jovem Nietzsche critica a ausência das crenças míticas no que se refere à modernidade, revelando a decadência que é provocada pela luminosidade racional, a qual tudo quer explicar e desvendar, banindo o espaço da incerteza, da dúvida e do espanto. O mesmo é dizer que, o ‘Iluminismo’ [‘Aufklärung’] ao projectar uma compreensão das crenças, dos sentimentos e dos símbolos acaba por os destruir.
Na perspectiva de Nietzsche, o desaparecimento dos símbolos míticos leva à uniformização mental e à falência da civilização moderna que “perdeu a pátria mítica”,[4] por se ter desenraizado culturalmente das forças criadoras da vida.
Ao diagnosticar este ambiente de decadência, Nietzsche considera, no entanto, a possibilidade duma regeneração por meio do retorno nostálgico ao mítico, a partir de um diálogo vivo entre a música e a filosofia. Tudo isto porque a música é a área cultural em que os símbolos ainda vivem, constituindo-se assim como o centro regenerador da criação e do pensamento.
Aqui recorre-se à inspiração de Wagner, na medida em que este ousou pensar por meio de acontecimentos visíveis e sensíveis, através de um acentuado envolvimento mítico. Nietzsche considera que em Tristão e Isolda e na trilogia do Anel dos Nibelungos encontramos um género de narrativa dramática que desenvolve as ideias metafísicas sob a forma simbólica. A música constitui desta forma a nova inteligibilidade do pensamento sem negar a sensibilidade, permitindo reflectir sobre a arte a partir dela mesma. Pensa Nietzsche que a música de Wagner é um mote para a reflexão, possibilitando uma compreensão metafísica mais elevada do que qualquer filosofia já conseguiu.
Como corolário disto, Nietzsche considera que a música é o espírito que origina a obra de arte trágica, participando na génese do coro (que é o elemento da união mítica entre a música e a palavra). Deste modo, o mito é o elemento comum que permite estabelecer a mediação entre a tragédia grega e o drama musical wagneriano.
Posto isto, pretende Nietzsche uma fundamentação mais recuada, procurando na Grécia Arcaica as condições ideais da formação dos mitos da tragédia; é neste sentido que, propomos esclarecer sumariamente um dos mitos a que Nietzsche mais recorre. Trata-se com efeito da história de Édipo, que é o símbolo dionisíaco do homem trágico, encontrando-se em luta e sofrimento face à interpretação do seu destino. Essa figura mítica é concebida por Nietzsche de modo ambivalente, considerando que Édipo é uma máscara do sofrimento dionisíaco, mas também é o “símbolo da ciência” por interpretar os mistérios mais profundos da natureza humana.
Notámos que, Édipo escuta vatícinios horríveis acerca de si próprio; no entanto, à medida que se vai descobrindo, também o seu destino irracional é realizado. Este herói interpretou o enigma da Esfinge, e, ao revelar-lhe o segredo desmistificou-a, matando-a com as armas da razão. No fundo, Édipo representa a união do pensamento mítico com a emergência de uma reflexão simbólica e filosófica, por se apresentar como o intérprete e decifrador dos enigmas. Todavia, apenas aquele que está na posse da ‘ciência’ da interpretação dos símbolos pode decifrar o enigma com verdade. Neste caso, a ‘adivinha’ é apresentada pela Esfinge, que é a figura por excelência da razão enigmática.

4. Em analogia com esta concepção, Nietzsche apresenta Apolo como o símbolo da ilusão, do sonho e também da adivinhação. Torna-se deste modo evidente que Apolo se identifica com Édipo, por este herói e aquele deus partilharem uma faculdade oculta. Já na mitologia grega se relatava que Apolo era o deus do oráculo, que detinha os poderes de adivinhar o futuro. Com efeito, ele representava uma modalidade da razão que tinha por finalidade decifrar os mistérios. Ao investigar este aspecto, Giorgio Colli destacou que: “o enigma indica a origem da razão”,[5] a qual é mais misteriosa do que a racionalidade filosófica desejaria, uma vez que vem marcada por um conflito interno quase comparável ao da loucura.
Em contraposição a Apolo, Nietzsche aborda a figura de Dionisos como o símbolo dilecto do seu próprio modo de pensar filosófico e estético. Através de Dionisos o filósofo trágico representa o êxtase da embriaguez, o excesso, a criatividade, o movimento do eterno retorno, a paixão sexual e as forças naturais da vontade. Pretende Nietzsche compreender as forças que estão na origem dos símbolos e das obras de arte, presentando o dionisíaco e o apolíneo como paradigmas da relação dialéctica de luta e de união dos opostos. Procura dar respostas às confrontações entre as entidades polarizadas, tanto no plano natural, como no plano simbólico e metafísico. Deste modo, o conflito retrata a dissonância e o sofrimento tal como é abordado na obra trágica.
Teve Nietzsche a intuição de que na arte existe a comunicabilidade entre os diferentes níveis da realidade, descrevendo-os através da transposição da linguagem não figurativa (dionisíaca) para a linguagem figurativa (apolínea). Esses elementos diversos ora se unem, ora entram em litígio estimulando a produção das novas obras. De facto, o acto criador espelha e perpetua o conflito – Dionisos avança com a força desmedida, que Apolo equilibra através do saber configurador. A tragédia ática é precisamente o resultado dessa conciliação entre essas forças antagónicas. Diz Nietzsche em O Nascimento da Tragédia:

“Assim, a difícil relação entre o apolíneo e o dionisíaco na tragédia poderia realmente ser simbolizada através de uma aliança fraterna entre as duas divindades: Dionisos fala a linguagem de Apolo, mas Apolo, no fim, fala a linguagem de Dionisos: com o que fica alcançada a meta suprema da tragédia e da arte em geral”.[6]

Verifica Nietzsche que existe na tragédia uma forma de criatividade que leva à harmonização das duas figuras simbólicas, de tal modo que, as relações complexas dos princípios apolíneo e dionisíaco podem ser traduzidas numa aliança de recíprocas conversões linguísticas, que identificam a comunicação ontológica e estética. Enfim, este processo ‘dialéctico’ representa a transposição criativa: onde a vontade informe e dionisíaca se manifesta na linguagem da forma teórica apolínea, tornando assim fecundo o casamento entre estes princípios opostos. Nietzsche sublinha que a conciliação instintiva dos contrários se gera nos abismos da razão inconsciente, revelando assim uma cisão ontológica, que no plano biológico é traduzido pela luta e atracção entre os sexos.
Em suma, Nietzsche critica a racionalidade abstracta, mas em contrapartida, defende uma racionalidade que comporta as forças da vontade na sua transformação e contradição. De facto, trata-se de uma razão viva que é percorrida e animada pelos símbolos criadores da natureza, do mito e da arte. O que significa que, o problema do símbolo traduz as diferentes formas da razão orgânica se apresentar e comunicar, pois através do processo transpositivo ela estabelece a unidade no seio da metafísica estética.
Enfim, Nietzsche pretendeu desenvolver um pensamento ao serviço da renovação civilizacional. Considerando que o símbolo morre se não desenvolve a capacidade da constante criação dos seus significados. Daí o filósofo da tragédia ter sido o arauto da renovação que ainda está em curso, criticando na modernidade a desvitalização e a morte dos genuínos significados simbólicos.


[1] Este artigo sintetisa a minha dissertação de mestrado: A Natureza e Função do símbolo na Metafísica Estética do Jovem Nietzsche., apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 2000.
[2] Carlos Alfredo do Couto Amaral, A Sombra dos Momentos Felizes, Lisboa, Edições Colibri, 2000, p. 62 [obra poética].
[3] NIETZSCHE, Fragmento Postumo, Vol. 7, frag. 3[20].
[4] NIETZSCHE, Nascimento da Tragédia, Lisboa, Relógio D’Água, 1997, Cap. 23, p. 161.
[5] Giorgio COLLI, Après Nietzsche, Montpellier, Éditions de L’Échat, 1987, p. 36.
[6]NIETZSCHE, Nascimento da Tragédia, Lisboa, Relógio D’Água, 1997, cap. 21, pp. 139-140.

Leituras de Verão

O Atiçador de Wittgenstein, de David Edmonds e John Eidinow (Temas de Debates)

É um fabuloso livro! Vou mais ou menos a meio e não consigo largá-lo. Uma história gira, uma óptima panorâmica do que era a vida nos meios intelectuais do século XX, óptimas biografias tanto de Wittgenstein como de Popper. Um livro excelente para este tempo de Verão. Recomendo.

domingo, 22 de junho de 2008

Estatística de Eleição

Li esta notícia no portal de notícias do Sapo. Ao que parece o e-escola vai ser alargado...

«Sócrates anuncia alargamento de entrega de computadores ao 7º ano de escolaridade

(...)O anúncio foi feito por José Sócrates na cerimónia de entrega do computador 200 mil no âmbito do programa e-escola, na Escola Profissional Gustave Eiffel.

De acordo com o Ministério da Educação, ao estender-se aos 7º e 9º ano de escolaridade, o programa e-escola vai abranger no próximo ano lectivo mais 380 mil alunos dos ensinos público e privado.(...)»


Uma medida cara como a do e-escola não pode ser tomada de ânimo leve. Para este programa, são utilizados fundos comunitários que podiam ser utilizados para mil e um fins diferentes. Apostou-se nisto por ser considerado melhor. Mas como podem saber que é melhor? Não deram nem um ano ao programa para ver se a coisa traz benefícios! Oferecer 200 mil até hoje já é imenso, já era bastante razoável para se avaliar o programa e os seus efeitos, mas alargar para o dobro é pura loucura! Vamos analisar alguns números. Apenas no serviço de banda larga, os estudantes do e-escola em condições normais têm um desconto de 5€ (os de baixos rendimentos pagam muito menos, mas vamos colocar todos como se tivessem rendimentos médios). 5€ por cada um dos 380 000 alunos dará ao Estado um encargo mensal de 1.9 milhões de euros. Ao fim do ano, isto fica pela módica quantia de 22.8 milhões. Não estou a contabilizar aqui os subsidiados e os apoios na compra dos computadores (sim, porque nenhum computador custa realmente 150€). Penso que é precipitado lançar o Estado para um encargo anual de 22.8 milhões de euros quando há um universo quase infinito de destinos para esse dinheiro todo.

Porque é que sinto que tudo isto é para fazer estatística para as eleições?

sábado, 21 de junho de 2008

Economia de Mercado? Nah...

Sublime a ideia do PCP que irá ser aplicada dentro em breve, tudo indica. O PCP propôs há algum tempo atrás um imposto extraordinário a aplicar sobre as empresas petrolíferas que iria ser aplicado sobre os lucros "a mais" que estas empresas tiveram devido à subida do preço dos combustíveis. É carinhosamente chamada "Taxa Robin dos Bosques". Estalinismo no seu melhor. Quando começam os planos quiquenais? Seria muito bom o governo comprar o Tarrafal de novo...

Isto é gravissimo, está a abrir-se um precendente bastante mau. Uma economia de mercado (como se pretende que a nossa seja) é regulada pela procura e pela oferta. Se algo estiver a ser feito contra a lei, aí o Estado actua. Mas lucrar ainda não vai contra a lei! O Estado não pode pegar por aí! A coisa funciona de modo muito simples: o preço de um bem consiste na quantidade de dinheiro pela qual os compradores estão dispostos a comprar e os vendedores a vender. Como, ao que parece, com estes preços, ainda ninguém deixou de comprar gasolina e as empresas ainda não perderam dinheiro (só ganharam), o preço está perfeito onde está, segundo as leis do mercado. Se pegarmos por aqui, então também temos de aplicar um imposto extraordinário à banca, porque é imoral emprestar dinheiro a quem o pede... (vá se lá saber porquê) e também aplicaríamos um tremendo imposto aos agricultores devido à subida dos preços dos cereais! Não se governa assim! O Estado deve funcionar como Estado-Providência, não como Estado Totalitário, costuma dar mau resultado pelo que se tem visto...

Compreendo, no entanto, que a situação dos combustíveis é complicada... E as pressões dos partidos populistas são muito fortes... Suposto pois que tal imposto se aplica, para que reverterá esse dinheiro? Esta é a parte mais absurda: para apoio social e tal e coiso. Ora vejamos. Um imposto é aplicado porque as empresas petrolíferas estão a lucrar muito com a especulação. Essa especulação não é coisa nossa, é coisa do mundo todo, e não se espera que diminua nos próximos anos... Por que não aplicar o dinheiro desse imposto na investigação de energias alternativas e no investimento nestas, de modo a criar uma alternativa à causa do imposto? Não sei... eles lá deverão ter uma ideia...

Na minha opinião é realmente verdade que os preços estão demasiado altos, e isso é feito por causa de um aproveitamento de oligopólio para controlar o mercado. Mas não é a aplicar impostos estúpidos que a coisa vai lá. É preciso é que seja provada a cartelização e haja processos sérios em tribunal para que o Estado (e com Estado, refiro-me, obviamente, a todos nós) seja indemnizado por ter enchido os bolsos da Galp e da BP.

Adenda: Leiam o artigo de Álvaro Santos Pereira, está brilhante, no Desmitos

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Qual Ratzinger?

Vi hoje n' O Jumento algo que a início pensei ser sátira contra o papa, mas afinal não. Quando percebi o que aquilo era percebi que tinha de por aqui:


[Karim Kadim/Associated Press]

«A man kissed the body of his two-year-old son, Akeel Faisal Ghazi, who was killed in the minibus bombing the Huriya district. The attack was the deadliest blast in the capital in more than three months. The hospital issued gloves to the people who were handling the bodies and remains of the victims.» [The New York Times]

Desmistificar os Exames

Isto é impressionante. Há uma meia dúzia de coisas que faz os portugueses exaltarem sangue, suor e lágrimas. Uma é o futebol. Já foi. Outra são os exames nacionais. Ainda cá estão.

Há uns tempos, no Quarta República, houve uma pequena discussão sobre o assunto sobre os "especialistas" que dizem que os exames são a pior coisa que há para as mentes jovens (aqui). Quartos desarrumados, stress constante. Conversa! Os exames são necessários e importantes, até para haver justiça nos acessos à faculdade e para que os estudantes possam provar aquilo que sabem. Mas nem tudo são rosas.

Hoje a crónica do Carlos Fiolhais (disponível aqui) só fala do facilitismo dos exames. Os alunos, ao que parece, fazem um exame nacional com uma perna as costas e as mãos atadas! Rídiculo! Porque é que os intelectuais gostam tanto de ser radicais? Os exames nacionais não são fáceis! Isso é conversa de quem não os faz... Caros professores doutores extremamente empenhados em assuntos da educação e em desvalorizar aquilo que é um exame nacional, os exames são bastante tramados, por vezes. Se calhar para um tipo de 10, 11 ou 12 é facílimo manter ou até subir, mas para os 17, 18, 19 é dificílimo! Os critérios de classificação por vezes estragam completamente a nota de um aluno brilhante que fica com o acesso comprometido por causa de picuinhices!

Vamos lá pensar um bocadinho antes de andar para aí a dizer disparates!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fim do Ópio!

Finalmente! Já não era sem tempo de saírmos daquela porcaria daquela competição! Coisa triste que o nosso espírito patriótico só surja quando meia dúzia de novos ricos se metem num campo a jogar. Seria óptimo que agora que saímos do Campeonato as pessoas deixassem as bandeiras nas janelas, mas sabemos que isso é impossível. Miséria!

É bem feita para esses todos que encaram o futebol como um ópio que os afasta do que verdadeiramente interessa no país. Portugal não é Cristiano Ronaldo e muito menos Deco. Os alemães que fiquem felizes com a sua droga e todos os outros também!

Almada como nunca a vi

Sou de Almada e nunca a vi como na crónica Avenida Objectiva do blogue Avenida Central. Parabéns ao Bruno Gonçalves. Deixo-vos aqui a fotografia:


Morto mas pouco

Pois é. Dizem as más línguas que o Tratado de Lisboa morreu. Coitadinho. Mas pelos vistos não morreu muito... Não tem sido muito noticiado, sabe Deus porquê, mas ontem os nossos mais antigos aliados ratificaram o Tratado com o voto favorável da Câmara dos Lordes. Deixo aqui a notícia do Público:


«Parlamento britânico ratifica Tratado de Lisboa

(...) Depois dos Comuns, a Câmara dos Lordes aprovou esta tarde o novo tratado europeu, depois de a maioria ter rejeitado (por 277 votos contra 184) uma iniciativa da oposição conservadora para suspender a ratificação em consequência da vitória do “não” na Irlanda – resultado que os opositores do documento consideram ter posto um fim ao processo em curso nos 27.A ratificação foi concluída às 20h30 locais (mesma hora em Lisboa), por votação oral, sem uma contagem precisa dos votos. (...) » [Ler a notícia na íntegra aqui]


Neste momento até eu estou um pouco dividido. Mas tendo para o "sim" depois de ler este excelente post do Corta-fitas escrito pelo Luís Naves

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Uma Directiva necessária

Este post do Ponta e Mola sobre a Directiva do Retorno aprovada hoje pela União Europeia fez-me pensar sobre o assunto. Eis aqui, reformulado, o comentário que deixei no blogue do amigo Al Kantara.

Uma lei de imigração forte e restritiva é essencial para o desenvolvimento de qualquer país ou região que já seja minimamente desenvolvido. Se por acaso, de um momento para o outro, houvesse total liberdade para quem quisesse entrar na UE, isso daria azo a enormes problemas económicos e sociais. Bem sei que existem imensas disparidades a nível de desenvolvimento no mundo, bem sei que é legítimo que quem vive em fracas condições tente melhorar a sua vida, no entanto, isso não pode ser através da emigração ilegal. Imaginemos que não existiam leis de imigração, quais seriam os impactos? Chegada massiva de população da África, Ásia e América Latina à Europa. Um continente sobrelotado. A economia não iria conseguir dar resposta a tanta população. Os excedentes de mão-de-obra iriam levar o desemprego a taxas nunca antes vistas e a escassez de bens a níveis de inflação como não se sente desde a Segunda Guerra Mundial. Estes dois factores juntos levariam a pobreza e, consequentemente, criminalidade. A Europa iria desmoronar-se em três tempos e tudo pela falta de zelo nas fronteiras. Isto não é racismo ou xenofobia, nem da minha parte nem da parte da União Europeia, que diga-se, é o bloco económico que, a nível mundial, mais ajudas dá aos países subdesenvolvidos. Isto é apenas uma questão de bom-senso com vista a não prejudicar centenas de milhão de pessoas apenas por serem mais desenvolvidas. Deve apenas ser autorizada imigração legalizada pois, assim, as economias terão possibilidade de "absorver" os imigrantes, os quais viverão nas mesmas condições (idealmente, como é óbvio, bem sabemos que o racismo e a xenofobia não são coisas da TV) e que, ao enviar remessas para os países de origem poderão ajudá-los. Por vezes é necessário pensar um bocadinho para perceber o que os que mandam fazem...

O Sonho Europeu - Jean Monnet

Agora que tanto se fala do Tratado de Lisboa, pensei em ir ao baú da Europa, procurar quem teve a culpa da criação do maior bloco económico do mundo. Pelos vistos, a Europa é um bocadinho estranha, tem dois pais. Hoje vou falar apenas do pai francês Jean Monnet, para uma próxima ficará Robert Schumman.

Nascido em 1888, em França, o pequeno Jean Monnet estava destinado a trabalhar no negócio familiar de cognac. No entanto, desde muito novo mostrou aptidão para uma verdadeira carreira diplomática. Aos dezasseis anos foi para Inglaterra, aprender inglês. Aos dezoito, o pai envia-o para o estrangeiro, ao serviço do pequeno negócio familiar, nessa ida ao estrangeiro, o jovem Jean vai à Escandinávia, aos Estados Unidos, ao Egipto ao Canadá e à Rússia.

É em 1914 que começa o seu serviço à nação, não no plano militar, mas no plano diplomático. Ele propõe ao Presidente do Conselho que criar um plano de coordenação entre as nações aliadas. O plano é posto em prática e os Aliados vencem.

Devido ao seu contributo na resolução do conflito, Jean Monnet é convidado para integrar a Sociedade das Nações à data da sua fundação, em 1919. Ocupa o cargo até 1923, altura em que sai para se dedicar ao negócio familiar. Neste período ele ajuda a estabilizar a situação de vários países, nomeadamente na Europa Oriental.

Durante a Segunda Guerra Mundial, volta a destacar-se, propondo em 1940 a união total entre o Reino Unido e a França, a ideia veio tarde demais, a França já tinha sido anexada. Foi ele o responsável pela ajuda militar dos EUA à Europa em 1941, convencendo o presidente Roosevelt a fornecer o "arsenal das democracias". Segundo Keynes, esta entrada encurtou a guerra em cerca de um ano.

Depois do fim da guerra, as suas ideias de integração económica não cessaram. Em Alger profere o célebre discurso que dá início à ideia Europeia. Ficou célebre a sua frase: "fazer a Europa é fazer a paz". Em 1950, juntamente com Schumman, propõe uma alta autoridade que regule a produção do carvão e do aço, recursos essenciais para a reconstrução europeia. Assina-se em 1951 o Tratado de Paris que dá início à CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), que contará no início com seis países: França, RFA, Itália, Luxemburgo, Bélgica e Holanda. Jean Monnet será o primeiro presidente da CECA.

Em 1955, Monnet quer ir mais longe e cria o Comité de Acção para os Estados Unidos da Europa, propondo que a Europa deverá, no futuro, unir-se ainda mais, criando um Mercado Comum, uma União Monetária, um Parlamento Europeu de sufrágio universal, uma Comissão Europeia e diz ainda que a Inglaterra deverá aderir. Até ao fim da sua vida, Jean Monnet teve a séria convicção que a única forma de os países europeus crescerem era através da integração económica.

No fim da sua vida dedica-se a escrever as suas memórias. Morre em 1979, sendo os seus restos mortais depositados no Panteão Nacional francês.

Gostaria de no fim deixar duas frases repetidas por Jean Monnet que são verdadeiramente inspiradoras:

"Je ne suis pas optimiste, je suis déterminé"

"Il y a deux catégories d'hommes : ceux qui veulent être quelqu'un et ceux qui veulent faire quelque chose"


Fonte: Associação Jean Monnet

Ainda me queixo da política à portuguesa!

N' O Jumento vinha uma referência à politicamente correcta campanha da Irlanda, nomeadamente, à do "não". É impressionante como meia dúzia de pessoas se aproveita da ignorância de muitos para poder bloquear a Europa. Como digo no título, ainda me queixo da política à portuguesa! Continuem populistas amigos, desde que não façam estas misérias a que alguns chamam "democracia". Aqui deixo a imagem e uma ligação para um blogue da campanha para verem mais pérolas.


O blogue é este.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Maio 68

Este belíssimo texto de Carlos Amaral quase nos transporta para aqueles rebeldes e apaixonados cafés parisienses. Vale muito a pena lê-lo.

http://instantesdecisivos.wordpress.com/2008/05/23/na-margem-da-rebeliao/

Nem tudo tem de ser sério

Descobri um fantástico blogue, através d' A Camâra dos Comuns. O nome é A Amante do Sr. Eng.º e é de ir às lágrimas! Visitem que vale a pena!

Deixo aqui a imagem que mais gostei:

Educação Sexual

No De Rerum Natura lembrei-me de ir ver ao youtube um ou dois episódios da série A Bit of Fry and Laurie e encontrei uma belíssima pérola sobre educação sexual nas escolas. Ora vejam:

Alpinismo ou simpatia?

No Diário Digital de hoje vem uma notícia sobre um certo Prémio Nobel e um certo African American que vai liderar o mundo... Será que cheira a poder ao defensor da Terra?


«Eleições EUA: Al Gore anuncia apoio a Barak Obama

Prémio Nobel da Paz e ex-vice-presidente dos EUA durante o mandato de Bill Clinton, o democrata Al Gore manifestou, esta madrugada de terça-feira, publicamente, o seu apoio à candidatura do colega de partido Barak Obama à Casa Branca. (...)»


segunda-feira, 16 de junho de 2008

Isto está feito para os burros!

É impressionante como a Educação em Portugal tem como premissa dar palmadinhas nas costas aos chumbados e pontapés no rabo aos excelentes. No jornal Sol vem uma notícia que revolta qualquer interessado na matéria:


«Associação denuncia regras injustas nos exames nacionais, mas ministério desmente

(...) A AEXAMES explica que, com a passagem, em 2004, da 2.ª fase de exames de Setembro para Julho, permitiu-se que os estudantes possam usar as notas desta fase na 1.ª fase de acesso ao Ensino Superior.
Excluíam-se, contudo, as repetições na 2.ª fase, de exames realizados na 1.ª, quer para aprovação quer para melhoria. Desta forma, igualavam-se as oportunidades no concurso à 1.ª fase.
Em 2008, desapareceu a norma que impedia a utilização, na 1.ª fase de acesso, de repetições no mesmo ano para aprovação. Desta forma, um estudante, ao reprovar na 1.ª fase de exames, pode repetir a prova na 2.ª fase, concorrendo à 1.ª fase de acesso ao Ensino Superior.
Manteve-se, no entanto, o impedimento de utilização das melhorias de classificação realizadas na 2.ª fase de exames na 1.ª fase de acesso.»

Medalhas de Consolação

Soube pel' O Jumento que o nosso sempre presente Santana Lopes agora quer uma medalhinha para pendurar no quarto com certeza. Vou transcrever:

«A má moeda quer uma medalhinha

Santana Lopes, que para Cavaco Silva era má moeda, não vai ao congresso nem quer ser autarca, já só quer que Cavaco Silva lhe dê uma medalhinha no próximo 10 de Junho. Vamos ter o Lopes das medalhas.»


Mas que miséria! Bem merecido o prémio de Jumento do Dia!

A morte, a reencarnação e a ciência

No outro dia vi um episódio da série Os Simpsons, no qual um indiano, o Apu, antes de se tentar suicidar foi ver, num pequeno mapa, quais seriam as reencarnações seguintes. Isto quase me passou despercebido, mas dei por mim ontem a pensar nisto de "reencarnar".

Quando morremos, tudo aquilo de que somos feitos se espalha por aquilo a que comummente chamamos Natureza. Todo e qualquer bocadinho de nós é incorporado noutras vidas, animais ou vegetais. Isto é um facto científico. Por isso, porque não acreditar numa "reencarnação", acreditar mesmo naquela velha e ultrapassada história que os nossos ente-queridos andam por aí a vaguear? Bem sei que isto deve ser alguma pseudo-ciência e pode ser considerado uma tentativa de validar as coisas escritas pelos teólogos, mas é um assunto que me fascina um pouco. Por exemplo, os monges budistas, pelo que vi no Canal História há uns tempos, quando morrem, são colocados no deserto para serem comidos pelos animais, assim darão o seu último (ou não) contributo à Natureza. Ideia tão reconfortante esta de que todos aqueles que já existiram e que existiram estão por aí, à espera de serem "montados" de forma a darem lugar a uma pessoa como nós.

domingo, 15 de junho de 2008

Diz que foi a 78ª

Fui hoje ao último dia da Feira do Livro de Lisboa. Tão cedo não esqueço.

Tudo começou com um Metropolitano estragado, parado, que me fez ir a pé desde a Baixa/Chiado até ao Parque Eduardo VII. Quando entrei vi, com tristeza, um ecrã gigante no mesmo sítio daquele bazar de conhecimento. Que contraste! T-shirts e cachecóis de um lado, óculos e cachimbos do outro. Mas a partir daí tudo foi gáudio e alegria.

Banquinhas bonitinhas, coloridas, a abarrotar de páginas à espera de ser lidas a preços sedutores. Numa volta - numa das muitas - pela feira, comprei O Atiçador de Wittgenstein por uns amáveis 7€. Quando estava numa das outras voltas uma coluninha faz-se ouvir, oiço na mesma frase "José Saramago", "autógrafos" e "Espaço LeYa". Corro. Pego num Ensaio Sobre a Cegueira, o qual andava desejoso por ler. Depois, desilusão. A fila tinha fechado, o autógrafo do esquerdino Nobel ia ter de ficar para o ano... Talvez para os outros, eu não saía dali sem um autógrafo bem autografado na segunda página do meu mais recente livro. Fui à fila e pedi à última rapariga se o podia levar para autografar. "Não faça isso!". Era o segurança. "Mas é o Saramago!" retorqui. Depois de 2 minutos de conversa o afável senhor lá fechou os olhos à minha prevaricação. Alegria! Tinha uma obra-prima da literatura portuguesa, em desacordo com o acordo do qual discordo, e com um autógrafo de uma das mais emblemáticas figuras do século XX para toda a humanidade. Assim terminou a minha visita ao mais maravilhoso evento da nossa bela praiazinha.

Para o ano, lá estarei, o livro autografado será A Viagem do Elefante ou O Envagelho Segundo Jesus Cristo, quem sabe? Decerto virei para casa com mais uma segunda página assinada.


P.S.: Caro Al Kantara, quando passei pela banca das Edições Avante vi o livro que me recomendou e considerei seriamente comprá-lo, não o fiz, talvez o compre na Festa do Avante em Setembro. Aposto que é do máximo interesse.

Os japoneses são brilhantes

É impressionante o facto de virem da Terra do Sol Nascente a maioria das grandes invenções actualmente. Desta vez, um carro movido a água. E não é apenas um projecto, é mesmo um carro que circula nas estradas com chazinho na bagageira. Será um passo de viragem nesta situação de crise petrolífera e de danos ambientais gravíssimos?

O que simples imagens nos dizem...

Hoje, n' O Jumento, são mostradas algumas imagens publicitárias do antigamente. Que belo retrato social que nos fazem sobre a cultura pobre que havia ainda há poucas décadas atrás. Deixo aqui uma imagem apenas, espero que O Jumento não me dê nenhum coice...

sábado, 14 de junho de 2008

Brilho de Wittgenstein

Bem sei que é um filme, mas é tão simplesmente genial este Ludwig...

Era uma vez um Tratado

Já vem um bocadinho fora de tempo, mas não tem mal. Começo a achar esta situação muito complicada. Em 2001 os Irlandeses chumbaram o Tratado de Nice, agora, com base em mentiras, chumbaram o Tratado de Lisboa. Muito francamente não tenho opinião formada sobre o Tratado, bem como, provavelmente, 90% da população portuguesa devido à subinformação acerca do assunto. Mas a questão que quero abordar não é a qualidade do Tratado, é a forma como estes referendos se fazem.

Toda a gente diz que devia ter havido referendo em Portugal, não discordo. Mas e se houvesse? Estou mesmo a imaginar:

PCP e BE - "Este Tratado vem contra os direitos dos trabalhadores e dos cidadãos!", "Porquê?", "A Luta continua! O povo está na rua!" - E ficaríamos esclarecidos

PS - "Este Tratado trará óptimas vantagens para Portugal, é necessário que votem sim!", "Porquê?", "Penso não ser altura para responder aos jornalistas..." - E a nossa sapiência aumentava imenso.

PSD e CDS - "Nós achamos que o governo está a governar mal! O governo tem de ser demitido por sua excelência e majestade, o Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, que Deus o guarde", "Então e o Tratado?", "Isso é só uma forma de o engenheiro Sócrates ter uma carreira projectada para a Europa", "Mas concorda ou não?", "Agora temos de dar por finda a conferência porque o senhor Portas está a ficar pálido e a Dra. Manuela tem de ir tratar da neta"
E o discurso seria feito neste tom, a esquerda radical, radicalmente contra, o PS mortinho pelo sim e a direita ambígua. O não iria ganhar por causa da pseudo-informação esquerdista que iria transferir a votação, não para a decisão do Tratado, mas para uma forma de protesto contra o governo.

Sou fascinado pelo Livre-arbítrio vs. Determinismo

E concordo plenamente com o "boneco".

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O problema da escassez e a necessidade de Estado

O problema fundamental da Economia é, como todos sabemos, o problema da escassez. Ao passo que as nossas necessidades são ilimitadas, os recursos para saciar as necessidades são limitados. Mas será que este problema apenas diz respeito à Economia?

O Homem, nos primórdios da sua existência como espécie, viveu num completo Estado de Natureza, semelhante ao de outros animais actualmente. Um dos grandes problemas da Filosofia é o "porquê" da transferência do Estado de Natureza para o Estado como o conhecemos actualmente. Houve uns senhores brilhantes que dissertaram longamente sobre o assunto. Eu, sendo menos brilhante, gostaria de falar um pouco sobre isso aqui.

In the beggining, o Homem vivia como um simples mamífero actual vive: buscando a sua subsistência. Ora, para subsistir, o Homem procurava recursos, que sendo escassos, eram procurados por outros homens e outras espécies. Criavam-se, então, conflitos de interesses entre os vários indivíduos envolvidos. Sendo detentor de um corpo fraco mas de um cérebro forte, o Homem teve necessidade de se organizar para poder subsistir (a cooperação para se poder competir - curiosamente é um belo princípio económico da actualidade). Mas nenhuma organização consegue vingar numa anarquia, então, criaram-se as primeiras autoridades, provavelmente os mais fortes ou os mais inteligentes, as quais geriam estas pequenas organizações. Isto trouxe tudo aquilo que o Homem precisava: possibilidade de subsistência através do consumo e através da protecção da sua "comunidade". Obviamente estas "comunidades" inicialmente nómadas, depois sedentárias, evoluíram e tornaram-se verdadeiras "sociedades" - os primeiros Estados.

Esta é a minha perspectiva sobre o assunto. A Filosofia Política devia ir mais vezes aos fundamentos económicos.

Custos de Oportunidade

Tem sido muito discutido o QREN 2007-2013 nos últimos tempos. Ao que parece, conseguimos sacar mais uns trocados à U.E. com a desculpa de ser uma "última oportunidade" para nos desenvolvermos. A questão que se coloca agora é no que se hão de aplicar esses fundos.

Há muito tempo que considero que a nossa economia é como um castelo de cartas. Tentamos competir com os outros nos sectores mais avançados, mas as bases da economia são de puro papel. Podemos vender software para a NASA mas nem caminhos-de-ferro dignos desse nome temos. Nestes cinco anos de injecções de dinheiro que nos restam, é preciso pensar muito bem onde aplicar o dinheiro que nos chega.
Será que as obras públicas de grande evergadura como Alcochete ou o TGV são a solução? Talvez. Mas não constituem tal solução sozinhas. Há que ver muito bem se há dinheiro para apostar nessas provas de grandeza e, ao mesmo tempo, desenvolver tantos sectores tão importantes como a marinha mercante (da qual já falei), o transporte ferroviário de mercadorias, a pesca (para que possamos para além de encher o mercado nacional, exportar) e uma indústria transformadora que prima pela qualidade em vez da quantidade. É do conhecimento geral que o nosso modelo económico baseado em mão-de-obra intensiva está esgotado, pelo menos para nós, pois em mão-de-obra não competimos certamente com os asiáticos. Há apenas uma forma de competir: qualidade! Os têxteis e o calçado não morreram! Muito pelo contrário, ouvi recentemente a Fátima Lopes (a mais rica das duas) dizer que a marca Portugal é cada vez mais reconhecida. Porque não criar produtos de qualidade para competir no mercado internacional do luxo, esse belo mercado que tanto valor acrescentado tem para nos dar! É fulcral investir em alicerces sólidos para que, quando vier uma ventania, o castelo de cartas não se destrua.

Ainda temos mais um bocadinho de um mandato e depois um mandato inteiro para aplicar tão largas quantias de capital, por isso, PS ou PSD tratem de pensar no assunto.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Imposto Especulado

Bernardino Soares propôs hoje, no debate quinzenal da Assembleia da República, um imposto extraordinário que deveria ser aplicado às gasolineiras por estarem a ter lucros baseados na especulação. A ideia é interessante, dada a quase imoralidade do que as gasolineiras estão a fazer, no entanto, inconcebível num Estado com uma economia de mercado. Proibir as empresas de lucrar e de crescer é inconcebível! Os preços são ditados pela procura, se não houvesse tanta gente a adquirir combustíveis, seguramente os preços não seriam tão elevados! O problema é que os consumidores não param de adquirir combustíveis, o que faz com que quem vende veja uma possibilidade para ganhar mais dinheiro.
O grande problema disto é o facto de não existir alternativa, fizemos a cama em que nos estamos a deitar actualmente, ao sermos escravos do petróleo, nada funciona sem ele: os transportes, a indústria, a agricultura e toda a actividade económica em geral. A única solução é uma busca de alternativa, a qual me parece economicamente mais e mais sustentada pelos preços exurbitantes do petróleo.
Por ora, dada a dificuldade da reconversão imediata para outras fontes, há que estimular a concorrência no mercado dos combustíveis. Gostava de desafiar as pequenas gasolineiras (incluindo a Repsol) a praticarem preços realmente competitivos e aumentarem a sua quota de mercado enquanto a Galp e a BP caem a pique!

Ler mais e pior!

O post do De Rerum Natura sobre O Segredo deu-me a ideia de falar um pouco sobre o que é "ler" na nossa sociedade. É extraordinário como os nossos best-sellers se resumem a livros sobre Carolina Salgado, Cristiano Ronaldo ou pseudo-ciência (como a d' O Segredo). Muito sinceramente sempre me recusei a ler qualquer um destes livros, são, na minha opinião uma ofensa àquilo que eu tomo como literatura. O mal disto tudo é que ainda há editoras que à procura do dinheiro fácil publicam aquilo que nem de livro devia ser chamado e deixam às portas de ser escritor óptimos potenciais. Seria interessante imaginar Kafka a escrever na actualidade, com 400 volumes vendidos teria sido completamente abandonado por qualquer Leya ou Presença ou o que for! Ao mesmo tempo, deixam matar árvores para publicar puro lixo!

As marinhas mercantes e o desenvolvimento económico

Pois é, lá estou eu a falar novamente de Economia. Hoje, numa conversa sobre o bloqueio dos camionistas espanhóis, chegámos à conclusão que somos extremamente frágeis! Basta um bloqueiozinho espanhol e vamos à vida. A única coisa que nos poderia salvar era uma forte marinha mercante, mas nem isso temos...
Se analisarmos bem vários períodos da história, vemos que uma forte marinha mercante contribui imenso para o crescimento das nações. Ora vejamos alguns exemplos: a Inglaterra - um dos grandes motivos da sua hegemonia foi a posse de uma marinha imbatível que dominava os mares do mundo durante séculos, a Holanda - começou a ter algum desenvolvimento quando se lançou ao mar, tendo o maior porto do mundo (Roterdão), a China - foi uma potência inigualável que se lançou ao mar antes de qualquer outra nação do mundo, quando abandonou o mar, teve perdas colossais; já para não falar dos países ibéricos que tiveram o seu apogeu no tempo em que estavam lançados para o mar.
Este problema dos camionistas veio-nos revelar muita coisa. Imaginemos, por um instante, que este bloqueio se mantinha um mês. Um simples mês. Lojas sem alimentos, bombas de gasolina sem combustível, inexistência de comércio com Espanha e com o resto da Europa (dado que a esmagadora maioria é feita por via rodoviária). A única solução iria residir na utilização do transporte marítimo, com o qual poderíamos chegar a qualquer parte. Olhemos novamente para Inglaterra, se há coisa que aquele país não faz com os outros são trocas comerciais por via rodoviária... Temos mais a aprender com os nossos maiores aliados do que aquilo que imaginamos...

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Como destruir uma economia em 10 minutos

Os afilhados herdam dos Padrinhos um certo interesse pela Economia e pela economia. Como o meu blogue não se dedica apenas à política (nisso já há muitos e melhores que o meu) vou hoje dizer qualquer coisinha sobre Economia.

Há algo muito interessante na realidade portuguesa, que provavelmente se estende a outras realidades ocidentais, que é a divulgação das contas nacionais pelos meios televisivos. Ora todos os anos a amiga SIC, RTP e TVI noticiam a taxa de Inflação. Nada contra. O pior vem depois. A maioria dos comerciantes portugueses não tem qualquer tipo de conhecimento básico sobre mecanismos económicos e o que é que faz quando vê 2% na televisão? Aumenta todos os preços da mercearia em 2%, como alguns preços ficam muito feios, os merceeiros arredondam os preços (sempre para cima) - foi o que aconteceu com o euro, lembram-se?
Isto à partida não tem muito mal... os merceeiros estão em vias de extinção e terem um lucrozinho extra é sempre positivo. O pior são os efeitos "escondidos". Ao fazerem isto, os merceeiros vão aumentar ainda mais a inflação e o poder de compra dos cidadãos diminui. Estes exigem aumentos salariais para cobrir esta perda e recebem o apoio dos sindicalistas (competentes os nossos, hein...). Os governos com medo de perderem popularidade, tratam de fazer a vontade e aumentam os salários. Um aumento de salários vai aumentar os custos de produção, aumentando novamente a inflação. Tudo isto se passa num ciclo vicioso com aumento de preços sem aumento de valor. A economia começa a perder força e competitividade e, em última análise, poderá sofrer um colapso. Há que ter cuidado...

terça-feira, 10 de junho de 2008

Quem já paralisou que atire a primeira pedra!

Pois cá estamos. Num país em que à partida, mandam a lei e os bons costumes, temos, numa semana, pescadores a vandalizar vendedores. Na outra, camionistas a vandalizar os seus colegas de classe. Magnífico!

Sou a favor da manifestação (ou manif. como dizem os modernaços) mas há mínimos! Para alguém se manifestar, convém que haja um motivo, convém que se manifeste contra as pessoas certas e convém que o faça de forma respeitosa e democrática. De todos estes requisitos mínimos, só um é preenchido, o do motivo. Mas esse motivo, biliões de pessoas no mundo partilham! E mesmo assim muitos nem motivo têm porque vejamos, os empregados das empresas de transporte não sofrem com os aumentos dos combustíveis na sua profissão, quem sofre são os patrões, portanto que venham os patrões reclamar e não mandem os empregados fazer o trabalho sujo.

Coisa linda é ver certas coisas na TV, a minha amiga dos serões. "O senhor pode ir, mas eu não me responsabilizo" é uma pérola da atitude democrática. "Vai a vontade, mas depois não digas que não te avisei!". Por favor, já estou como o Tiago Barbosa Ribeiro do Kontratempos, quando é que começam as detenções?

A Raça

Valha-nos Deus! Enviem o infame Cavaco para o xadrez pois ousou pronunciar o nome maldito!

Quando ontem vi na televisão o nosso ilustre Presidente da República referir-se ao dia de hoje como o Dia da Raça tive a estranha sensação que a Assembleia da República iria ficar em profundo alvoroço... Não me enganei, hoje o BE e o PCP, influentes partidos na cena política nacional "reagiram".

Já é tempo de abandonar os tabus. Sou profundamente contra o fascismo mas não temos de nos inibir deste tipo de coisas porque aí teremos uma ditadura sem ditador. Dia da Raça, Ponte Salazar, estátua em Santa Comba Dão, Museu, venham eles! Como disse Roosevelt, é bom que haja o máximo de documentação sobre tudo para que nada seja esquecido!

Inauguração

Declara-se oficialmente aberto O Afilhado. Com o título inspirado n' O Padrinho, este é um blogue que se dedicará à política, filosofia, economia, história e, quem sabe, a umas coisinhas de ciência. Aberto à possibilidade de integrar mais afilhados, este blogue será um espaço de livre discussão, a única censura será feita à má educação e ao desrespeito pelo que os outros pensam.

Espero poder ter neste blogue textos de qualidade e sem "gralhas". Certamente que estarei aberto à crítica e à mudança, caso assim o entenda.